No dia 2 de Abril, 6ª feira, é o Dia Internacional do Livro Infantil. Aqui fica a mensagem do dia, este ano da autoria de Angeliki Varella com ilustração de Nicholas Andrikopoulos.
A divulgar!

Os dois irmãos costumavam brincar com um globo terrestre. Davam-lhe voltas e mais voltas e, de olhos fechados, escolhiam um ponto ao acaso. Com o dedo paravam o globo e, se o ponto em que tocavam coincidia com Pequim, Madagáscar ou México, iam às bibliotecas procurar livros cujas histórias se passassem nos lugares que lhes tinham calhado.
Gostavam muito de ler. Sentiam um imenso prazer com a leitura. E, na janela do quarto deles, via-se a luz acesa até muito tarde.
Com a «luz» dos livros caminharam pela Grande Muralha da China, escutaram a canção do Oceano com os Vikings, viveram perto das pirâmides do antigo Egipto, deslizaram de trenó sobre lagos gelados na companhia de esquimós, participaram nos jogos da antiga Olímpia e até ganharam uma coroa de ramo de oliveira.
Quando finalmente adormeciam, os contos, as histórias e as lendas, os lugares, os escritores e os heróis confundiam-se nos seus sonhos e embalavam-nos suavemente: Esopo contava as suas fábulas a Xerazade no ponto mais alto da Torre Eiffel, Cristóvão Colombo escutava Tom Sawyer a relatar as suas travessuras num barco em pleno rio Mississipi, Alice passeava no País das Maravilhas pela mão de Mary Poppins e Andersen narrava as suas histórias à aranha Ananse, junto a uma pirâmide.
O jogo com o globo terrestre e os livros divertia muito os dois irmãos, porque não acabava nunca. As páginas que haviam lido tinham-nos tornado marinheiros e exploradores. Com a «luz» dos livros conquistavam o planeta, viviam em diferentes civilizações, diferentes épocas, admirando a sua imensa variedade. Dito em poucas palavras: descobriam a vida no vasto mundo, ali a dois passos do seu quartinho. Voavam para todo o lado, viajavam por toda a parte e sonhavam.
E, é claro, esqueciam-se de apagar a luz!
– Meninos, toca a dormir! – repreendiam os pais. – Já é tarde. Apaguem a luz!
– Não podemos – respondiam a rir. – A «luz» dos livros nunca se apaga.
ANGELIKI VARELLA
Versão portuguesa: José António Gomes
ANGELIKI VARELLA nasceu em 1930, estudou História e Arqueologia na Universidade de Atenas e tornou-se uma das mais conhecidas e premiadas escritoras gregas de livros para crianças e jovens. Várias das obras que publicou (mais de três dezenas) são inspiradas na realidade da Grécia antiga e da sua mitologia ou ainda na vida natural. Mas aborda também problemas sociais com sentido de humor e optimismo. Dos seus muitos títulos destacam-se Nós e a Grécia (1966), Um Verão em Monemvasia (1976), Dragão, Dragão, onde Estás? (1986), Corinto (1998), Os Sapatinhos Contadores de Histórias (1998) e Dez Sanduíches com Histórias (2002).
A MENSAGEM DO DIA INTERNACIONAL DO LIVRO INFANTIL (2 DE ABRIL) É UMA INICIATIVA DO
IBBY (INTERNATIONAL BOARD ON BOOKS FOR YOUNG PEOPLE).
DIFUSÃO EM PORTUGAL: APPLIJ – SECÇÃO PORTUGUESA DO IBBY.
O direito irrenunciável de ler
José António Gomes
Abril é o mês do livro. E também o mês da liberdade. Período em que importa, por isso, reflectir sobre a funda experiência de liberdade e cidadania que a leitura de um livro pode proporcionar.
Quem não consegue renunciar a essa experiência sabe que ler, em primeira instância, é entrar numa conversa. E esse diálogo com a voz de um autor – que é depois, e também, um «tête à tête» com o herói de um conto, uma novela ou um romance – constitui, por si só, uma vivência da tolerância, do confronto intelectual de ideias e sentimentos, um lugar de aceitação activa da diversidade. A diversidade das culturas, das ideologias, das crenças religiosas, a diversidade dos olhares e dos modos de sentir e estar no mundo. Além de permitir esta aprendizagem da comunicação entre os homens (que é também aprendizagem da língua nos seus vários planos de funcionamento), a leitura oferece, àquele que lê, a oportunidade de se ir situando em relação ao mundo que o rodeia e de construir criticamente a sua própria identidade. E é por isso que nunca os regimes ditatoriais ou obscurantistas se empenharam em promover seriamente a leitura e, sem o confessarem, sempre preferiram o analfabetismo e a iliteracia, que mergulham o homem na ignorância das servidões a que está sujeito. Por isso – quase sempre em nome da economia – desinvestem na cultura, desinteressam-se da construção de bibliotecas, e propagandeiam uma noção redutora da cultura como «património» ou como mera galeria de glórias passadas.
Mas ler (poesia, narrativa, drama…) é igualmente uma forma de construir mundos imaginários a partir de um texto, permitindo àquele que lê desenvolver a consciência das suas próprias faculdades na utilização da linguagem verbal. Uma linguagem que – descobre-se então – não serve apenas para comunicar, mas também para criar objectos textuais, eventualmente estéticos, e para entrar nesse ludismo infindável que é o jogo das palavras, o jogo irrenunciável do literário.
2 de Abril é o Dia Internacional do Livro Infantil, 23 de Abril o Dia Mundial do Livro, 25 de Abril o Dia da Liberdade. Meditemos nas três datas, pensemos no livro. Sem esquecer que Portugal é um dos países da Europa onde menos se lê e onde mais horas são passadas diante de uma televisão que nos envergonha. E, em conformidade, saibamos reclamar para as nossas crianças e os nossos jovens a possibilidade de um dia se tornarem cidadãos mais cultos e livres, mais críticos e conscientes dos seus direitos. Pois, como lembra a escritora grega Angeliki Varella, «a ‘luz’ dos livros nunca se apaga».