março 03, 2004

"A lagarta dos livros - alguns ingredientes para a promoção da literacia desde a primeira infância"

Comunicação subordinada ao tema da promoção da literacia na primeira infância, apresentada no dia 3 de Outubro de 2003, no I Encontro Internacional ‘A Criança, a Língua e o Texto Literário – da Investigação às Práticas’, no Instituto de Estudos da Criança.

1. Introdução

«Que haverá nos livros? – costumava perguntar a mim mesma, quando tinha três ou quatro anos, sentada no meu banquinho, na livraria dos meus avós. Atrás da caixa, sentava-se a avó. Do outro lado do balcão, a minha mãe esperava os clientes. Por detrás dela, as estantes chegavam até ao tecto e, para se poder alcançar os livros das prateleiras de cima, uma grande escada, suspensa de uma barra de ferro por dois ganchos, deslizava da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. Não pensem que me aborrecia! Quando um cliente entrava na loja, eu punha-me a adivinhar: irá escolher um livro das estantes inferiores, ou interessar-se-á por algum colocado nas de cima? Jovem, ágil e inteligente, a minha mãe sabia onde se encontrava cada livro, subia a escada se necessário, descia com um livro de capa azul, vermelha ou dourada e colocava-o diante do comprador. Eu sentia-me orgulhosa da minha mãe e cada vez me interessava mais e mais pelo que pudesse existir nos livros. Nas filas de baixo, também os havia de capa azul, vermelha ou dourada, cheios de letras negras, pequeninas, mas nenhum tinha desenhos tão bonitos como os meus!
Em minha casa toda a gente lia. A minha mãe, o meu pai, os meus avós. Ao observar os seus rostos inclinados sobre um livro, ao ver que às vezes sorriam, que outras vezes se punham sérios, e que em certos momentos viravam a página com uma atenção tensa, interrogava-me: Por onde andarão? Se lhes falo, não me ouvem e, quando por fim me prestam atenção, parecem acabados de sair de algum lugar distante. Por que não me levam com eles? Que existe afinal nos livros? Qual é o segredo que não me querem contar?
Mais tarde aprendi a ler. E descobri, enfim, o segredo dos livros. Descobri que neles estava tudo. Não apenas fadas, gnomos, princesas e bruxas malvadas. Também lá estávamos tu e eu com todas as nossas alegrias, as nossas preocupações, os nossos desejos, as nossas tristezas; o bem e o mal, a verdade e a falsidade, a natureza, o universo. Tudo isso cabe nos livros. Abre um livro! Ele partilhará contigo todos os seus segredos.»
Éva Janikovszky

Podemos encarar como sendo do conhecimento geral que as crianças que crescem rodeadas de pessoas que lêem, de livros e que são envolvidas quotidianamente em actividades de leitura, têm mais probabilidades de virem a ser leitoras também.
Nas palavras de Ilana Zeiler, “como educadores não transformamos as crianças em leitoras; elas transformam-se. A nossa tarefa é ajudá-las, apoiá-las, agir como modelos.”
Este é um tema que vem preocupando os vários intervenientes no processo de promoção do livro e da leitura (famílias, educadores, editoras, entre outros). Há um ano atrás alguns periódicos dedicado um número a esta matéria, no rescaldo das comemorações do Dia Mundial da Literacia (8 de Setembro).
É de um destes artigos que destaco algumas ideias:

«(...) Há poucos livros em casa das pessoas e o livro não é visto como um bem essencial. (...) Se os pais compram pouco e lêem ainda menos, é altamente provável que os filhos sigam pelo mesmo caminho. Porque a leitura também se aprende e os hábitos adquirem-se desde cedo.
“Há pouco tempo assisti a uma conversa entre um pai e um filho, em que a criança estava a pedir um livro ao adulto. A resposta do pai, quando o filho lhe pediu para que comprasse um livro foi: ‘mas já tens tantos livros lá em casa!’. Ora isto é uma reacção típica de quem não tem gosto pela leitura. E de facto verifico, com tristeza, que os pais remam contra a maré(...)”, sublinha José António Gomes.»
Rita Ferreira

São diversos os intervenientes no processo educativo das crianças, potenciais mediadores da leitura, que têm o dever e a responsabilidade de agir no sentido de criar futuros leitores e combater os infelizes resultados que obtemos quando toca a avaliar níveis de leitura e literacia, em Portugal.
Nesta comunicação tenho por objectivo abordar pistas para imprimirmos hábitos de leitura desde a primeira infância, nomeadamente do nascimento aos três anos, já que aqueles que aprendem a associar a leitura a momentos agradáveis e prazenteiros, aprendem a acarinhar os livros e guardam na memória a sensação boa da partilha de uma história e de um colo.
“Não há nenhuma idade definida na qual uma criança pode começar a desenvolver a literacia. Uma criança mais nova pode ser um melhor leitor do que uma criança mais velha num determinado momento. A capacidade de leitura não tem nada ver com a idade. Tem a ver com as competências linguísticas da criança, com as suas experiências, com quanto lhe foi lido, quanto brincou com palavras e livros, quanto fingiu ser leitor (...).” (Ilana Zeiler)

2. Mediadores da Leitura

Com um acompanhamento atento, o bebé aprende o poder das palavras e a alegria de ler e manusear livros. Os modelos de literacia são muito importantes nesta fase de desenvolvimento, e devemos certificar-nos que pais, amas ou educadoras conversam e leêm muito com a criança.
Alguns mediadores da leitura privilegiados e com responsabilidades concretas neste âmbito são:
o Família nuclear (mãe, pai, irmãos) – Como foi já atrás referido, os pais têm a responsabilidade de garantir o contacto da criança com os livros e com o património oral; de tornar o seu ambiente mais próximo (o lar) 100% pró-literacia. É no seio da família que se recebem as grandes lições de literacia e é este o terreno mais fértil para uma interacção afectiva à volta da leitura.
o Família alargada (avós, tios, padrinhos, primos, etc.) – Os avós, os tios, ocupam um lugar especial na vida da criança e no seu desenvolvimento afectivo, bem como cognitivo. É por isso que o seu papel como modelos de literacia não deve passar despercebido, mas sim ser alvo de atenção e sensibilização para esta questão.
o Intervenientes no processo educativo (amas, educadoras, professores, animadores, etc.) – Depois da família, ou, vistas bem as coisas, com o tipo de vida que levamos hoje em dia, a par com a família, estão as amas, os infantários e respectivas educadoras, os professores, etc. Também aqui o tipo de desempenho a que o bebé assiste, ao nível da literacia é preponderante. E ainda mais importantes são as iniciativas desenvolvidas no âmbito das estratégias de promoção do livro e da leitura.
o Amigos e vizinhos – O bebé e a família estão rotineiramente em contacto com outras pessoas do circuito social. Estas relações vão igualmente desenhar uma determinada postura em relação à leitura. O que as torna também susceptíveis de atenção, mais uma vez, como modelos,
o Pediatra – Nenhum elemento que participa da educação do bebé pode ser deixado de lado, sendo o pediatra ou médico de família um elemento com grandes responsabilidades, dado o seu papel no que toca à própria formação dos adultos enquanto pais. Este personagem tem um papel de sensibilização para o comportamento da criança como leitora.
o Estado – Se nenhum interveniente neste processo pode ser ignorado, o Estado é sem dúvida um grande responsável, principalmente no que diz respeito às políticas (educativas e culturais) neste sentido, aos incentivos que fomentam esta àrea e às companhas de (in)formação que se devem indubitavelmente desenvolver, para que esta não permaneça uma preocupação elitista e discriminatória.
o Media (TV, rádio, imprensa) – A seguir às entidades governamentais, surgem, inevitavelmente os meios de comunicação social. A imprensa, a rádio e, com grande relevância dado o seu inquestionável poder, a televisão, não podem desresponsabilizar-se do seu papel educativo, devendo sempre estar patente uma preocupação, numa primeira instância, com a primeira infância, e com a literacia.
o Autores e editoras – Por último, mas não com menos importância, destacam-se os feiticeiros e magos, que são os autores e as próprias editoras que produzem parte relevante da matéria prima com que trabalhamos quando se fala de promoção do livro e da leitura. São eles ainda e cada vez mais as nossas “esperanças” para a criação e preservação de um património literário que irá acompanhar-nos e às crianças neste processo em permanente evolução, da literacia para a vida.
É importante sublinhar que todos estes mediadores da leitura devem operar em conjunto, devendo ser criadas redes efectivas entre eles, no sentido da optimização das suas respectivas funções.

3. Recursos fundamentais

Para que estes mediadores possam desenvolver actividades de dinamização da leitura, são necessários recursos específicos e adequados, concretamente, à primeira infância (do nascimento aos três anos).
Os que considero mais importantes são: as canções de embalar, jogos e rimas infantis; os próprios livros, adequados a esta faixa etária; e os vários objectos lúdicos que se podem utilizar nesta dinamização.

o Canções de embalar, jogos e rimas infantis
Nas palavras de Ilana Zeiler, “as crianças aprendem a linguagem dos livros antes de saberem ler. Aprendem-na através das canções e rimas infantis e da forma como vêem a linguagem ser utilizada no seu ambiente”.

«Os contos e rimas infantis parecem ser como o leite materno, que nenhuma preparação, por mais adiantada que esteja a ciência, poderá igualar. (...) O seu modo de transmissão – de viva voz – pressupõe a proximidade, o prazer do contacto físico dos interlocutores e a permanente adequação comunicativa. Não é preciso que a criança compreenda uma rima para se comprazer nela.(...) Entre nós, João dos Santos salienta, a importância da interacção do adulto no desenvolvimento da linguagem, na primeira infância. E linguagem é, para este autor, «enquadramento afectivo», que engloba «atitude, expressão, mímica, gesto, palavra e relação». Na sua óptica, coexistem nas «gracinhas» tradicionais ensinadas por mães, avós e amas às crianças que sentavam no colo, a distância e o espaço necessários à comunicação e a proximidade do contacto corporal que dá a segurança afectiva indispensável para entender os outros e fazer-se entender.(...)»
Adolfo Coelho

As canções de embalar, jogos e rimas infantis, segundo Maria José Costa, têm funções e aplicações pedagógicas e didácticas importantes, que passam pela aquisição da linguagem, socialização, relaxamento, (acalmar, adormecer), aquisição do esquema corporal, exercício do humor, entre outras. Assim, em canções de berço, nas rimas inseridas em contos e nas suas fórmulas finais, com os jogos de dedo e fórmulas de selecção, com lenga-lengas, etc., o bebé tem um primeiro contacto, lúdico e afectivo, com a literacia.

«(...) Cantar, embalar, dar pequenas palmadas, brincadeiras que têm a ver com o movimento e a dança, são formas primárias de comunicação que simultaneamente incentivam a aquisição da língua materna (...). Ou seja, a comunicação pré-verbal que se estabelece entre Pais e filhos é importante quer em termos linguísticos quer em termos de estimulação musical.»
Helena Rodrigues

o Tipos de Livros
O acto de ler é tão importante como os livros que escolhemos. Todos sabemos que ler com as crianças é fundamental para o seu desenvolvimento, pela aventura, as viagens da imaginação, a informação e o desenvolvimento intelectual que a literatura oferece, mas como escolhemos os livros certos para as crianças?
Aqui ficam, a partir da experiência prática com crianças destas idades e de pesquisas em livros e na internet, algumas sugestões de livros diversos e orientações para faixas etárias diferentes.
Recém nascidos: Ver as coisas a preto e branco
Além do quentinho de um colo confortável e do som de uma voz favorita, algumas ilustrações e texto prendem a atenção dos recém-nascidos. Os recém-nascidos vêm melhor as coisas de cerca de 50 cm de distância – ou a distância entre a sua cara e a dele quando está com ele ao colo. Por isso é melhor seleccionar livros com imagens de alto contraste. Imagens com traço grosso e simples, fotografias, ilustrações e padrões a preto e branco (riscas, bolinhas, xadrez), com o mínimo de texto ou mesmo sem palavra, proporcionam muito entretenimento para crianças desta idade.
A partir dos 8 meses: Cartão, toca e sente, interactivos, de pano e de banho
Os livros de cartão, livros curtos e simples, são feitos páginas de cartão laminado. Devem ser rijos com pontas arredondadas, porque o bebé irá provavelmente roê-las e forçá-las. Nesta idade os livros parecem-se muito com brinquedos.
Para estimular crianças mais velhas, os livros que necessitem alguma destreza manual são os mais adequados. Livros toca e sente que ofereçam uma variedade de texturas iniciam o bebé nas diferenças entre fofo e duro, macio e áspero.
Os livros interactivos, com pop-up’s (imagens que saltam) abas e badanas para espreitar, tiras para puxar, etc. motivam a exploração.
A partir dos 18 meses: Albuns de imagens
“Quando uma criança começa a desenvolver-se como leitora – note-se, não falo de aprender a ler, mas de tornar-se leitora começa por tirar significado das imagens e a ouvir as outras pessoas a ler. As crianças lêem antes de ler tirando significado das imagens. As imagens contam uma história.” (Ilana Zeiler) Por isso mesmo, os livros de imagem proporcionam enredos e ilustrações mais elaborados do que os livros de cartão. Os assuntos variam desde o ABC até aos animais, dos sentimentos aos personagens preferidos.
Em termos de conteúdo, numa fase do desenvolvimento pautada pelo egocentrismo, os temas ideais são todos aqueles com que o bebé se identifica. Livros que tenham os brinquedos preferidos da criança, textos simples (uma palavra por página serve) e ilustrações ou fotografias grandes e realistas que tenham crianças envolvidas em actividades de todos os dias. Os livros da hora de deitar são fundamentais por volta dos dois anos. Ler um livro com o pai ou a mãe antes de deitar pode servir como um óptimo relaxante estas crianças tão activas. Existem, também com grande aplicação pedagógica, livros que abordam temas diversos ligados a etapas específicas do desenvolvimento do bebé, cuja leitura não só cria o gosto pelo livro, mas ainda ajuda os educadores a lidar com algumas questões mais difíceis. São os livros que trabalham o medo ou o escuro, a chegada de um novo irmão, o treino do pote, entre outros.

o Outros recursos (bonecos de peluche, fantoches, instrumentos, caixas de música, etc.)

Acompanhar os livros e as histórias com alguns adereços capta a atenção e é motivador.
A partir de um vulgar boneco de peluche ou com uma simples mala de cartão, pode abrir-se a porta para um mundo de histórias fantásticas com personagens fantásticos.
Principalmente a partir dos dois anos, altura em que a criança tem uma enorme curiosidade e uma grande necessidade de exploração, tendo todos os seus sentidos viradas para os mais variados estímulos, fantoches e instrumentos musicais são extremamente úteis para ajudar à concentração.
O momento e o cantinho da leitura, em casa ou na escola, além de estar preenchido de estantes com livros, deve estar enriquecido com estes objectos lúdicos.

4. Propostas e Estratégias

De todas as actividades que se podem desenvolver com os bebés, no sentido da promoção do livro e da leitura, sem dúvida que a primordial é ler para eles e com eles.
Pode parecer estranho falar sobre ler para um bebé que ainda nem se senta sozinho ou que prefere chuchar nas páginas dos livros do que virá-las. No entanto, enroscado nos braços de um adulto, o bebé delicia-se com a melodia e as modulações da sua voz. Aliás, é a natureza musical da linguagem, o ritmo da prosa, que impelem uma criança a prestar atenção a uma história mesmo que esteja a anos de distância de perceber o significado das palavras.
É preciso não esquecer que se os bebés não nascem amantes de livros, nascem óptimos aprendizes. E quanto mais ler para eles, mais eles irão aprender. Eles aprendem a gostar da sensação das páginas nas suas mãos (ou na sua boca), o som da sua voz, a beleza das ilustrações... a alegria de um bom livro.
Os bebés absorvem muito mais da hora da leitura do que se imagina. Aprendem a segurar num livro; que os livros se lêem da esquerda para a direita; e que aquelas marcas nas páginas devem significar qualquer coisa.
Deve ler-se com expressão, dar ênfase ao ritmo e às rimas e usar vozes diferentes para os personagens, mas não leer “à bebé”; falar sobre as imagens, apontar as cores, formas, animais e coisas de interesse na história; ler outra vez (as crianças adoram ouvir os mesmos sons e palavras vezes sem conta, assim como ler um livro várias vezes também o ajuda familiarizar-se com palavras comuns).
Deixo aqui algumas sugestões de actividades simples a desempenhar no quotidiano das crianças, baseadas, novamente, na prática e em alguma pesquisa.

o 10 Propostas de actividades para a literacia na primeira infância

Rotular - Os educadores devem rotular/nomear constantemente as coisas do ambiente do bebé (por exemplo: “Esta é a tua roca!”), descrever acontecimentos diários (“Vamos passear no carrinho”), as rotinas diárias. Deve aumentar-se o vocabulário do bebé usando uma larga variedade de palavras quando se fala com ele.
Hora dos Sinais - Apontar para sinais e símbolos. Irá reforçar a ideia de que os símbolos têm significado, preparando a criança para traduzir letras para sons e palavras.
Eu espio - Brincar ao espião que entra coisas que comecem por A é uma boa forma para introduzir linguagem direccional e ligar as letras aos seus sons e a linguagem aos objectos que representa.
É meu! - Escrever o nome da criança em livros e papéis e apontar para ele. Irá construir familiaridade com as letras do seu nome e mostrar um uso concreto da escrita.
Cantar alto! - Introduzir sons e a música que eles fazem através das canções. A maioria das crianças têm mais facilidade em lembrar sequências de palavras se forem contadas.
Faça perguntas - Trabalhar a atenção do bebé em relação ao mundo que a rodeia e a si própria simplesmente perguntando como ela se sente ou o que vê à sua volta. Fazer perguntas sobre o que ela gostava de fazer depois do almoço ou da sesta também introduz o conceito de tempo e narrativa.
Jogos de palmas - Bater palmas com as sílabas do nome da criança e outros membros da família. Isto irá mostrar-lhe que palavras diferentes têm comprimentos diferentes e que as palavras compridas podem ser partidas em bocados pequenos.
Construa ABCs - Arranjar um conjunto de blocos de alfabeto para as crianças construirem e brincarem – irá trabalhar o reconhecimento de letras e a construção de torres de blocos ao mesmo tempo.
Gravar-se a ler - Fazer uma gravação audio de si a ler um livro preferido e passá-lo em viagens de carro ou como alternativa à televisão. Deixar o bebé “acompanhar a leitura” sozinho.
Biblioteca - Aproveitar programas de leitura locais: a maioria das bibliotecas ou centros comunitários oferecem programas para crianças pequenas que enriquecem a experiência de ler com espectáculos de marionetas, filmes ou expressão plástica. Passar tempo envolvidos em actividades relacionadas com a leitura é igualmente importante

5. Conclusão

2003-2012 foi proclamada a Década Internacional para a Literacia e a Assembleia das Nações Unidas reafirmou que a literacia para todos é o coração da noção de educação básica para todos, e que criar ambientes literários é essencial para erradicar a pobreza, alcançar a igualdade de géneros e garantir um desenvolvimento sustentável.
É, por isso, crucial alertar vivamente para a importância da participação de todos os intervenientes no processo educativo na promoção do livro e da leitura.
A intervenção desde a primeira infância é um princípio fundamental para a criação de futuros leitores. Um exemplo desta afirmação é o trabalho desenvolvido por Pep Duran, como livreiro, animador e contador de histórias.

“É nas sessões com os mais pequenos que me dou conta da força das palavras acompanhadas com imagens e objectos. Dou-me conta de como penetram e abrem espaços íntimos em cada ser que escuta. Nestes espaços habitam as palavras, junto das recordações, junto das sensações que se criam no momento de contar com um livro, com um objecto, com a sugestão de um aroma ou com o som de um carrossel.
Estou convencido de que a leitura abre espaços no interior do leitor, espaços novos em alguns casos e noutros, espaços que estavam fechados ou esquecidos. Espaços antigos onde habitam emoções “enquistadas” por não ter encontrado a palavra que lhes permite fluir.
Quando estas palavras, sejam lidas ou ouvidas, lidas nos grafismos das partituras que formam o texto escrito, ou ouvidas através da música da sua sonoridade, ocupam espaços novos, abrem portas fechadas pelo esquecimento ou pela dor, estas palavras despertam sensações no corpo.
O corpo regista-as, guarda-as, associa-as ao objecto livro, à acção de ler, à pessoa que as entregou.
O leitor regista-as na memória sensitiva do corpo. Esta memória do corpo actua sobre a decisão a tomar, sobre a atitude de esforço necessária para ler.
Não devemos esquecer que esta decisão de pegar num livro para ler implica solidão, dificuldade, esforço, mas também compreensão, satisfação, plenitude, ilusão e uma multiplicidade de emoções sensitivas.”
Pep Duran

Cabe-nos a todos os presentes nesta sala, como educadores e investigadores, garantir a perpetuação da palavra, do livro e da leitura através de práticas efectivas nesse sentido, não só no âmbito profissional, mas também a nível pessoal.

Diz-se
Diz-se das palavras
que cantam como a água,
diz-se das histórias
que trabalham a memória
e que são como as amoras:
tiras uma, tiras duas,
tiras três, tiras quatro,
ninguém consegue parar
de ouvir quem sabe contar.
João Pedro Messeder

BIBLIOGRAFIA

POSLANIEC, Christian (2001) Donner le Goût de Lire, Paris : Éditions du Sorbier

RODRIGUES, Helena (2003) “Andakibebé. Para os Pais e educadores”, in RODRIGUES, Helena (2003) Andakibebé, Porto: Campo das Letras

MESSEDER, João Pedro (1999) Versos com Reversos, Lisboa: Caminho

COELHO, Adolfo (1994) Jogos e Rimas Infantis, Porto: Edições Asa

DURAN, Pep (2002) Promoción de la lectura e de las nuevas tecnologias en la lij Catalana, in COSTAS, Maria Eulália Agrelo (coord.) et al. (2002), Narrativa e promocion de lectura no mundo das novas tecnoloxias, Xunta de Galicia, Santiago de Compostela.

FERREIRA, Rita (2002) Conta-me Histórias, Pais & Filhos, nº 141, Motorpress, Lisboa

COSTA, Maria José (S/D), Um Continente Poético Esquecido: As Rimas Infantis, Porto Editora, Porto

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fevereiro 01, 2004

Segmento "Comunicações"

No caso em que os direitos de autor o permitam, pretendemos aqui disponibilizar os textos de algumas comunicações a que, na maioria das vezes, só um grupo restrito de pessoas tem acesso.

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